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Meteoro ou meteorito? Depende do momento 16 de Fevereiro de 2013

Situações como a que ocorreu na Rússia não são raras, mas em geral não se podem prever.

Foi um “meteoro” ou “meteorito” o que caiu na Rússia nesta sexta-feira, provocando centenas de feridos? Ambos, explica Rui Jorge Agostinho, director do Observatório Astronómico de Lisboa.

Na terminologia científica, há três nomes para um corpo celeste como aquele. Quando ainda está a navegar no espaço, diz-se “meteoróide”. No momento em que atinge a atmosfera terrestre, passa a “meteoro” – que é o nome que se dá não à partícula em si, mas ao rasto luminoso que deixa no céu, devido à combustão causada pelo atrito com o ar.

Muitos meteoros não passam disso, com o corpo que veio do espaço a desintegrar-se na atmosfera. Mas se alguns resíduos chegam ao chão e são encontrados, então a estes chamam-se “meteoritos”.

“Obviamente que neste caso há meteoritos”, afirma Rui Agostinho, com base nas imagens até agora divulgadas do episódio na Rússia.

A esmagadora maioria dos meteoritos que chegam à Terra provêm da cintura de asteróides que existe entre Marte e Júpiter. Quando os asteróides chocam entre si, explica Rui Agostinho, muitas vezes ejectam material desta cintura para o interior do sistema solar. Algumas destas partículas podem chegar à Terra, como ocorreu na Rússia.

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Partículas como estas viajam a velocidades hipersónicas. Segundo as autoridades russas, o meteoro desta sexta-feira terá entrado na atmosfera a 30 quilómetros por segundo, quase 90 vezes a velocidade do som. Sob o atrito do ar, o meteoro trava até atingir a barreira do som. “Neste momento dá-se uma explosão sónica”, afirma Rui Agostinho.

Foi a onda sonora desta explosão que causou a maior parte dos danos na Rússia, sobretudo vidros partidos.

O episódio ocorrido na Rússia não é raro. “Objectos com aquele tamanho até são relativamente frequentes. Mas nem todos chegam até ao chão”, afirma Rui Agostinho. Situações semelhantes podem ocorrer em qualquer parte do mundo, com consequências distintas caso se dêem sobre o mar ou regiões despovoadas, ou em áreas urbanas.

O astrónomo Nuno Peixinho, do Centro de Geofísica da Universidade de Coimbra, relembra que o meteoro que caiu no Sudão em 2008, há quase cinco anos, teria um tamanho entre os dois e os cinco metros.

O objecto foi descoberto 20 horas antes da sua queda na Terra, que se deu a 7 de Outubro de 2008, e foi seguido por astrónomos por todo o mundo por ter sido o primeiro meteoro identificado antes de bater na Terra.

“O meteoro que caiu agora na Rússia foi uma surpresa. Aquele que caiu no Sudão foi identificado com horas de antecedência”, disse Nuno Peixinho ao PÚBLICO. “Com antecedência de 20 horas não daria para evacuar uma cidade grande, mas permitia tomar algumas medidas.”

O investigador explica que o comportamento de um meteoro à medida que se desfaz na atmosfera é, para já, imprevisível. O objecto pode desfazer-se em cem pedaços ou em três bólides maiores e essa diferença pode definir as consequências da queda no que toca aos estragos. “Para se prever melhor, tem de se estudar bem estes fenómenos”, defende o astrónomo.

Mas não são eventos tipicamente previsíveis, como as chuvas de estrelas cadentes, que estão associadas à passagem de cometas.

O caso da Rússia não estará associado à aproximação do asteróide DA14, com 45 metros de diâmetro e que poderá ser visto com binóculos ou telescópios nesta sexta-feira, quando passar a 35.000 quilómetros da Terra. “Não há ligação com isso. A órbita do DA14 é muito estável”, diz Rui Agostinho, que dará uma palestra nesta sexta-feira sobre os asteróides, às 21h, no Observatório Astronómico de Lisboa. A palestra poderá ser seguida em directo na Internet e o Observatório terá as portas abertas, embora as condições do tempo possam prejudicar a visualização do DA14.

Nuno Peixinho também é da mesma opinião: “Muito provavelmente deverá ser uma coincidência. Há muita coisa a passar muito perto da Terra.” Segundo as estatísticas, um objecto de dez metros de diâmetro cai de dez em dez anos. “Estes casos servem de alerta, é de facto necessário que se investigue estes objectos para tentar prevenir este tipo de acidentes.”

RICARDO GARCIA e NICOLAU FERREIRA

15/02/2013 PÚBLICO