BioGeogilde Weblog

Blog de apoio e complemento às aulas de Ciências Naturais, Biologia Geologia e Biologia

As camas dos orangotangos são obras de engenharia 20 de Abril de 2012

Os orangotangos ganham aos chimpanzés e gorilas, pelo menos na questão das camas. Entre os grandes símios, os orangotangos são aqueles que fabricam as camas mais elaborados e que duram mais tempo. Mas nunca se tinha estudado aprofundadamente as suas camas, ou ninhos, que permanecem nas árvores da floresta tropical, no arquipélago da Indonésia, depois de os seus donos terem continuado viagem. Agora, uma equipa de cientistas britânicos descobriu que estas estruturas são uma obra de engenharia complexa, a começar na forma como os orangotangos utilizam os galhos das árvores na sua construção.

O estudo, publicado nesta semana na revista norte-americana Proceedings of the National Academy of Science, é da equipa  de Roland Ennos, da Universidade de Manchester, no Reino Unido.
Aparentemente há uma tradição nos grandes símios – chimpanzés, bonobos, gorilas, orangotangos –, para construírem ninhos complexos. “Assim que deixam de mamar, todos os grandes símios constroem ninhos quase diariamente”, explica a equipa no artigo. É um processo inato, cujo desempenho melhora quando os indivíduos têm a oportunidade de observar um adulto a fazê-lo. Normalmente, os ninhos são feitos nas árvores, onde o sono é mais descansado, há uma protecção acrescida contra os predadores e menos insectos parasitas.
Particularidades dos primos ruivos
Os orangotangos têm algumas idiossincrasias acrescidas. Evitam construir os ninhos em árvores de fruto, o que pode ser uma táctica para não terem de lidar com bichos que se alimentam destes frutos durante o sono, e têm preferências por certas árvores, talvez devido à sua forma.
Diariamente, sobem a árvores com alturas entre os 11 e 20 metros e em cerca de 15 minutos deixam a sua cama pronta, às vezes com uma versão símia de almofadas e lençóis. “Vimos orangotangos a construir ninhos seguros e confortáveis dobrando, mas não partindo totalmente, ramos grossos que entrelaçavam e a torcer e arrancar ramos mais pequenos para fazer uma espécie de colchão”, explica Roland Ennos, num comunicado. “Parece que aprenderam sobre as propriedades mecânicas da madeira e usam este conhecimento de forma hábil.”
A equipa passou um ano a observar e a filmar orangotangos-de-samatra no centro de investigação de Ketambe, no Parque Nacional de Gunung Leuser, que fica no Noroeste da ilha de Samatra, na região onde restam os últimos 6600 indivíduos da espécie Pongo abelii, criticamente em perigo de extinção.
Os cientistas mediram os ninhos enquanto ainda estavam intactos e observaram as suas formas. São ovais, côncavos e têm, em média, um metro de comprimento e 80 centímetros de largura. A equipa descobriu que, por exemplo, uma fêmea de 38,5 quilos, em média, dormiria uma noite confortável e segura, graças às escolhas criteriosas durante a construção do ninho.
“Os orangotangos escolhem ramos fortes e rígidos para as partes do ninho que suportam o peso, e ramos mais fracos e flexíveis para o revestimento – o que sugere que a escolha dos ramos para diferentes partes do ninho é baseada no diâmetro e na rigidez dos ramos”, defende Ennos. Além disso, a forma como os orangotangos partem os ramos depende também da sua finalidade. Os maiores ficam meio partidos e continuam agarrados às árvores, enquanto os mais pequenos são completamente arrancados.
Os resultados destas escolhas e a forma como os ramos são entrelaçados na estrutura do ninho resulta num centro que é mais flexível e numa região lateral mais rígida. Ou seja, eles dormem numa cama que é simultaneamente confortável e segura. “Isto demonstra que têm algum conhecimento de engenharia”, diz Ennos.
Para o cientista, esta descoberta nos também nossos parentes de pêlo ruivo tem implicações no aparecimento da inteligência, da cognição e no fabrico de ferramentas durante a evolução humana. “O nosso estudo é uma prova que o desenvolvimento destas características começaram nos símios, porque eles precisavam de compreender o ambiente mecânico e não só o ambiente social.”

17.04.2012  Nicolau Ferreira – Público