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Porquê que há ondas gigantes na Nazaré? 9 de Novembro de 2011

A explicação para esta consistência é um fenómeno geológico, o canhão da Nazaré, um sulco profundo no leito do oceano que canaliza a força da água direitinha para este trecho de costa. Com mais de 200 quilómetros de extensão, este é o maior desfiladeiro submarino da Europa: no seu extremo mais abissal, chega aos 5000 metros de profundidade.

O Canhão ou Cana da Nazaré é conhecido como o maior da Europa e um dos maiores do Mundo (com a cabeceira situada a curta distância da linha de costa, o Canhão da Nazaré estende-se ao longo de mais de 200 km na direcção do oceano profundo) e só recentemente começou a ser estudado de forma multidisciplinar, pelo projecto Hermes (programa que reúne equipas de diversos organismos de investigação cientifica de toda a Europa), financiado pela União Europeia. O projecto prevê o levantamento minucioso do fundo do mar, com identificação de correntes, sedimentos e biodiversidade para tentar ajudar a perceber um dos mistérios do mar português.

 

O vale submarino começa a definir-se a cerca de 500 metros da costa, ao largo da Praia da Nazaré, próximo do promontório do Sítio, recortando a plataforma continental com uma direcção de EW. Prolonga-se por mais de 170km de comprimento e atinge uma profundidade superior a 5000 metros na planície abissal onde desemboca. Mas a sua origem é uma incógnita, porque, normalmente, estas estruturas estão associadas a grandes rios, servindo de vazadouros dos seus sedimentos, o que não acontece, de forma imediata e aparente, no caso da Nazaré. Há estudos que indicam a existência, noutras eras geológicas, de um rio aqui, possivelmente o Mondego que, por movimentos tectónicos, poderá ter sido desviado para norte.

Este autêntico «desfiladeiro» submarino influencia, de uma forma significativa, a plataforma continental e a região costeira, bem como, as espécies e os ecossistemas específicos do próprio canhão e o transporte de sedimentos das zonas costeiras para o largo. O canhão funciona como um gigantesco aspirador de areia, que engole o areal da costa portuguesa, principalmente os sedimentos provenientes da costa a norte da Nazaré. Tal facto explica o défice de sedimentos a sul do canhão e o elevado areal das praias a norte deste fenómeno geológico.

O Canhão da Nazaré é palco de processos dinâmicos e sedimentares extremamente energéticos e ainda pouco conhecidos, e pode constituir um local de refúgio que potencie o estabelecimento de ecossistemas marinhos profundos específicos, que importa conhecer.

O estudo do Canhão da Nazaré ajudou-nos a perceber, por exemplo, qual a sua influência sobre a abundância de peixe de águas profundas na região entre a Nazaré e Peniche; e analisar até que ponto os ecossistemas marinhos profundos são afectados pelos métodos de pesca intensiva. O levantamento biológico da flora e fauna do mar da Nazaré da área de influência do vale já trouxe à luz do conhecimento novas espécies, como os protozoários (Xenophyophore sp.) organismos unicelulares, envolto numa concha protectora achatada que podem atingir os 2,5 cm de largura por 6 cm de altura e é composta por finas partículas minerais, que vivem na superfície dos sedimentos e os crustáceos organismos com alguns milímetros de comprimento, brancos e com a particularidade de se enrolarem como um bicho-de-conta, vivem em grande profundidade, ente os 3000 e os 4000 metros.

Pressupõe-se que no subsolo da zona envolvente do canhão, deverá estar a maior reserva de hidrocarbonetos da Europa, devido à existência de uma grande bacia de sedimentos que poderá reter grandes quantidades de petróleo, embora os estudos já realizados não indiquem viabilidade de exploração.

Pelo trabalho elaborado, o nosso grupo considera o Canhão da Nazaré como um património BioGeológico de Portugal, devido a ser um dos maiores canhões do mundo e reunir condições físicas, químicas, biológicas e geológicas muito particulares.

Uma vez que a génese e a dinâmica do Canhão permanecem ainda como um mistério para os investigadores, achamos importante que a investigação multidisciplinar continue a ser realizada e apoiada por entidades competentes. E, acima de tudo, que o conhecimento permita preservar o mar português e as suas espécies.

Adaptação de texto de  Jorge Miguel Guilherme