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Portugueses estudam antibiótico encontrado em bactéria dos Açores 22 de Junho de 2011

Uma equipa de cientistas portugueses conseguiu pela primeira vez produzir mais facilmente uma classe de antibióticos, os chamados lantibióticos. Fez isso com uma substância de um bacilo encontrado nos Açores, esta molécula combate bactérias resistentes.

As fontes hidrotermais dos Açores foram o início da história que terminou este ano, com a publicação de um artigo na revista Chemistry & Biology. Foram nestas fontes que Sónia Mendo, professora da Universidade de Aveiro e coordenadora do trabalho, encontrou em 2000 o Bacillus licheniformis, durante o seu doutoramento. “As fontes hidrotermais são habitats adversos em que vamos encontrar organismos com capacidades diferentes do habitual”, explicou Sónia Mendo ao PÚBLICO.

A investigadora descobriu que este bacilo produz a lichenicidina, uma substância que combate duas das bactérias hospitalares mais resistentes: o Staphylococcus aureus resistente à meticilina e Enterococcus resistente à vancomicina.

A lichenicidina é interessante porque é uma molécula que faz parte dos lantibióticos, uma das várias classes de antibióticos, que se distingue por ter na sua composição o aminoácido lantionina.

A molécula identificada nas fontes hidrotermais dos Açores é formada por duas cadeias de cerca de 30 aminoácidos cada. Deste modo, a lichenicidina causa dois efeitos diferentes nas bactérias: impede-as de produzir a parede celular que as envolve e causa buracos na membrana celular deses micróbios, destruindo-os. “Em vez de ter um alvo tem dois, para as bactérias é mais difícil desenvolver resistências.”

O passo seguinte passa pelo estudo deste químico em bactérias manipuladas para haver um aperfeiçoamento da molécula, que poderá assim ser utilizado na medicina. Muito desse trabalho é feito na bactéria Escherichia coli, onde “as manipulações são mais simples”, disse a cientista.

Faz-se isto através da manipulação genética. Identifica-se o gene responsável pela produção do antibiótico na bactéria original, neste caso seria no bacilo hidrotermal, e depois transfere-se o gene para a E. coli. Depois, pode-se substituir aminoácidos no antibiótico, e testar as novas conformações da molécula e aperfeiçoar as suas funções.

O problema é que nunca se tinha conseguido pôr a E. coli a produzir lantibióticos. Era um dogma com 20 anos. Com a lichenicidina foi diferente. “Ao colocar o grupo de genes na E. coli ela produziu a substância”, disse a cientista, que referiu que o trabalho molecular foi feito por Tânia Caetano, também de Aveiro, e tiveram a colaboração da Universidade Técnica de Berlim. Agora a equipa vai poder brincar com a estrutura da molécula e ver o que acontece.

É possível que no futuro este lantibiótico seja aplicado na medicina? “Gostaríamos de chegar a essa fase, mas falta muito tempo”, explicou a cientista. “Ainda não sabemos o mecanismo de acção ou se a substância é tóxica nas células humanas.”

Público 20/06/11