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Dia mundial do café: A diferença entre o remédio e o veneno está na dose 14 de Abril de 2011

Hoje é dia mundial da bebida psicoactiva mais consumida no globo – o café. Esta infusão é muito apreciada em Portugal, especialmente como prática social, e, quem tiver o hábito de tomar “uma bica” ou “um cimbalino” diariamente e não obtiver a sua dose de cafeína fica mesmo mal-humorado ou desmotivado para realizar as actividades habituais. Se demasiado café faz mal, na quantidade certa pode até ser terapêutico. Já diz a sabedoria popular que a diferença entre o remédio e o veneno está na dose.

Se a bebida for consumida moderadamente, apresenta uma acção antioxidante, actua no combate aos radicais livres e, consequentemente, diminui os riscos de desenvolvimento de doenças cardiovasculares e alguns tipos de cancro. No entanto, o excesso de café pode causar irritabilidade, ansiedade, inquietação, insónia, dores de cabeça, náusea e problemas gastro-intestinais, devido a sua acidez.

Uma equipa do Centro de Neurociências e Biologia Celular (CNC) de Coimbra afirma ter aberto uma nova linha de investigação centrada nas doenças do humor, na sequência dos seus estudos com café para tratamento de doenças do cérebro.

O grupo de investigadores, liderado por Rodrigo Cunha, que se dedica desde 2001 a estudar dos efeitos da cafeína nas doenças de memória, avança que pode mesmo vir a tratar as doenças do humor, nomeadamente depressões, um dos mais graves problemas de saúde das sociedades actuais, que afecta uma em cada quatro pessoas.“Concluímos que o consumo crónico de cafeína (um bloqueador de receptores de adenosina) é uma estratégia neuroprotectora em diferentes situações de neurodegenerescência como doença de Alzheimer, stresse, neuro-inflamação, encefalopatia diabética, epilepsia e perda de memória com o envelhecimento”, descreve o cientista na página da instituição.Uma área na qual surgiram resultados muito consistentes foi a memória, designadamente na doença de Alzheimer, em que estudos epidemiológicos e em modelos animais evidenciaram que a ingestão de doses moderadas e continuadas de café diminuíam a sua incidência.Os investigadores julgam ter descoberto o alvo molecular onde actua a cafeína – o receptor A2A para a adenosina – e neste estudo para as doenças do humor constataram “que existe uma correlação com o que se passa no homem”. Rodrigo Cunha assinalou ainda que para um consumidor ocasional o café actua como um excitante, mas para quem o ingere de forma contínua e moderada, “depois do pico inicial de excitante, acaba por actuar como um normalizador de funcionamento do sistema nervoso central em particular”.
 
Previne contra AVC
Um estudo israelita recentemente publicado demonstrou que ingerir o equivalente a três chávenas de café por dia ajuda o sistema circulatório e pode proteger o organismo contra ataques cardíacos.A equipa de investigação liderada por Michael Shechter, director de investigação a clínica no Instituto do Coração de Sheba, realizou um estudo em 80 adultos, metade saudável e a outra com problemas cardíacos. Os participantes tinham de tomar uma pílula de cafeína que equivalia a três chávenas de café por dia.Os resultados revelaram que o consumo reduz a proteína que provoca ataques cardíacos e acidentes Vasculares cerebrais (AVC) e aumenta a que previne este tipo de problemas, ou seja, o consumo de cafeína melhora o funcionamento do endotélio em 30 por cento, reduz em 40 por cenro a proteína C – reactiva (CRP) no corpo – factor que propicia ataques cardíacos e AVCs – e aumenta em 25 por cento a quantidade de adiponectina, proteína que previne ataques cardíacos AVCs.Os benefícios da cafeína foram detectados nos dois tipos de pacientes. Shechter observou que ainda não está claro quais são as consequências do consumo desta bebida a longo prazo, mas que, durante várias horas, seu efeito é positivo. Os investigadores planeiam agora estudar os efeitos a longo prazo do consumo de cafeína sobre o sistema cardiovascular.Variações genéticas

A epidemiologista genética Marilyn Cornelis, da Harvard School of Public Health (EUA), descobriu duas variações genéticas que podem explicar o vício em cafeína. Segundo o estudo publicado na revista «PLoS Genetics», os genes correspondem entre 43 e 58 por cento às mudanças nos hábitos de beber café.

A investigadora e a sua equipa passaram a ‘scanner’ o genoma de 47.341 adultos norte-americanos e através da técnica de estudo de associação do genoma descobriram duas variações genéticas – uma das variantes estava próxima de um gene chamado CYP1A2, já conhecido em estudos realizados sobre cafeína e outra estava perto do gene AHR, que regulamenta a forma como o CYP1A2 é impresso. Os indivíduos com as duas representações consumiram mais 40 miligramas por dia do que voluntários sem qualquer variação do gene. O CYP1A2 encontra-se no fígado e é responsável até 95 por cento do metabolismo da cafeína.

O lado negro do café

A ingestão excessiva desta bebida pode provocar, em algumas pessoas, efeitos negativos como irritabilidade, ansiedade, agitação, dor de cabeça e insónia. Os portadores de arritmia cardíaca devem evitar até mesmo dosagens moderadas, ainda que eventuais, da substância. Altas doses de cafeína excitam o sistema nervoso central, inclusivamente os reflexos medulares, podendo ser letal. Vários estudos demonstraram que a dose letal para o homem é, em média, de três mil gramas por dia – o equivalente a 75 expressos.

Existem igualmente estudos que relacionam o consumo de cafeína com o aparecimento de osteoporose, mas são contraditórios. Mas, para os que estão habituados a grandes doses de cafeína diária, a abstinência pode ter os seus efeitos colaterais. Os sintomas ocorrem aquando de uma abstinência absoluta ou relativa de uma substância psicoactiva consumida de modo prolongado. O início e a evolução da síndrome são limitados no tempo e dependem da categoria e da dose da substância consumida imediatamente antes da parada ou da redução do consumo. A síndrome de abstinência pode se complicar pela ocorrência de convulsões, dores de cabeça e até delírios.

Organização Internacional do Café

Existe mesmo uma Organização Internacional do Café (OIC) – um organismo intergovernamental, criado com o apoio da Organização das Nações Unidas, para servir à comunidade cafeeira internacional –, com sede Londres e que acaba (no mês passado) de estruturar quatro comités: Estatística; Finanças e Administração; Promoção e Desenvolvimento de Mercado e o de Projectos – estes têm como função auxiliar a autoridade máxima do OIC, o Conselho Internacional do Café.

O objectivo desta organização é assegurar o incentivo à qualidade dos grãos nos países produtores, a expansão sustentável da cultura e os instrumentos de crédito diferenciados para o sector, facilitar o comércio internacional, intensificando a transparência e ampliar o acesso a informações relevantes, assim como promover a sustentabilidade da economia cafeeira, entre outros, através de um acordo regulador.

A OIC conta com 77 países membros – sendo cinco recentemente incluídos: Iémen, Libéria, Timor-Leste, Tunísia e Turquia, que vão ampliar a representação geográfica de produtores e consumidores no novo acordo.

 Ciência Hoje 14/04/11