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Um olhar sobre as doenças genéticas 10 de Novembro de 2010

 As doenças genéticas são causadas por anomalias no ADN de um indivíduo. Estas anomalias podem ser simples, no caso de uma mutação de um nucleótido, ou mais complexas, no caso de remoções ou rearranjos de parte de um cromossoma ou mesmo cromossomas inteiros.

O nosso ADN está sob influência constante de factores que podem causar mutações, tais como radiação de ocorrência natural (para experiências de ensino sobre radiação. Além disso, a cópia de uma sequência completa de ADN de uma célula durante cada mitose, é um processo que não está isento de erros. Como resposta, cada célula no nosso corpo mantém um exército de enzimas reparadoras de ADN que constantemente reparam os danos. No entanto, de vez em quando, algumas mutações escapam ao processo de reparação e permanecem no ADN.

 Se estas mutações ocorrerem em genes importantes podem provocar doenças graves. Uma vez que temos duas cópias de cada gene (uma proveniente da nossa mãe e outra do nosso pai), as mutações que danificam apenas uma cópia do gene podem não causar problemas imediatos, pois existe uma cópia saudável.

 Quando secções inteiras de cromossomas desaparecem ou são trocadas, ou quando cromossomas inteiros são duplicados ou removidos, estas aberrações são frequentemente letais e a criança morre antes do nascimento, ou levam a atraso mental e malformações, em síndromes como o síndrome de Down.

É também possível herdar susceptibilidade aumentada para doenças. Algumas mutações, embora não causem doenças, podem aumentar dramaticamente o risco de um indivíduo desenvolver uma condição particular: por exemplo, as mutações herdadas nos genes BRCA1 e BRCA2 levam a um risco aumentado de cancro da mama.

Parte do trabalho da Sabine é investigar e diagnosticar este tipo de doenças nos seus pacientes: “Uma situação típica ocorre quando os pais apresentam um filho, dizendo ‘Ele não tem um desenvolvimento adequado à sua idade. O filho do nosso vizinho, que tem a mesma idade, é muito mais alto e já gatinha. O nosso não consegue fazer isso’.” Existem várias ferramentas e testes disponíveis, mas no que respeita a um diagnóstico, a Sabine afirma: “Principalmente, e no centro de tudo estamos nós, os médicos, cuja missão é observar, ouvir, examinar e avaliar.” Após um cuidado exame clínico, e informados sobre o historial familiar, a Sabine pode ser já capaz de adivinhar qual será a causa da doença do paciente. O próximo passo é descobrir qual a mutação, responsável pela doença.

A análise cromossomal foi usada, pela primeira vez, pelo geneticista e pediatra Jérôme Lejeune, que, em 1959, descobriu que as crianças que padeciam de síndrome de Down possuíam uma cópia extra do cromossoma 21. Mesmo hoje em dia, existem muitas questões que podem ser respondidas usando esta técnica, mais do que com um teste genético: células extraídas de um paciente são cultivadas em laboratório, fixadas, preparadas e coradas para que os cromossomas possam ser estudados ao microscópio.

No entanto, algumas doenças são causadas por rearranjos ou omissões demasiado pequenos para serem detectados por análise cromossomal convencional, pelo que, em alternativa, é usada uma técnica designada FISH (fluorescent in situ hybridisation; hibridação in situ com sondas fluorescentes). Pequenas sondas de ADN, marcadas para fluorescência, são “desenhadas” para hibridarem com sequências específicas na região do cromossoma que se supõe estar afectado, e, numa amostra dos cromossomas do paciente, os médicos verificam se e onde ocorre hibridação.

Então, quando é que recorremos a um teste genético? “Eu escolho um, se suspeitar de uma doença específica, para a qual conhecemos o gene e a possível mutação”, diz a Sabine.


Técnica de FISH com sondas que ligam a sequências específicas de ADN. De notar, a omissão no cromossoma 22 na amostra à direita. Esta causa Síndrome de DiGeorge, caracterizado pela ausência das glândulas do timo e paratiróides, resultando em deficiência imunitária, pequena estatura e malformações na cara, coração e grandes vasos
Imagem cortesia de John Crolla, Wellcome Images

A Hemocromatose, a doença na qual a Martina se especializou, é a doença hereditária mais comum no mundo ocidental, e, em 85-90% dos casos na Europa central, é causada por uma mutação específica no gene HFESe os pacientes parecem padecer desta doença ou se suspeitam que a sua família seja portadora, é possível fazer um teste genético, em busca de mutações HFE. O ADN do paciente é isolado, normalmente a partir de uma amostra de sangue, e os nucleótidos do gene HFE, no qual ocorrem as mutações pontuais mais comuns, são sequenciados e esta sequência é comparada com a sequência encontrada em indivíduos saudáveis.

Muitas vezes, as crianças sofrem de uma doença física ou mental não específica, causada por mutações numa série de genes em diferentes cromossomas. Aqui, as técnicas de coloração dos cromossomas não permitem a obtenção de resolução suficiente para a identificação do gene defeituoso – mas a sequenciação individual de todos os genes potencialmente afectados seria, no entanto, uma árdua tarefa. Nestes casos, os geneticistas como a Sabine usam uma nova tecnologia: os microarrays (para uma explicação detalhada sobre microarrays e uma sugestão de apresentação numa aula, ver.Os microarrays aceleram largamente o processo de teste genético; uma vez que dezenas ou centenas de milhar de regiões do genoma podem ser testados simultaneamente, é possível efectuar testes para várias desordens. No futuro, os cientistas esperam que venha a ser possível desenvolver um microarray capaz de, de uma forma simples e rápida, testar todas as doenças genéticas e predisposições.

Nenhum pai ou mãe desejam que um seu filho nasça com uma doença genética. Até há pouco tempo, os testes pré-natais eram a única opção disponível para determinar se um bebé nasceria com uma doença grave. No entanto, desde o aparecimento da fertilização in vitro, tornou-se possível analisar as características genéticas de um embrião antes da sua implantação no útero, uma técnica designada diagnóstico genético pré-implantatório.

Actualmente, estão disponíveis muitos testes para doenças genéticas bem caracterizadas, que permitem aos pais, em risco de transmitirem uma doença genética, a selecção de um embrião saudável para implantação. Em muitos aspectos, isto é excelente, uma vez que significa que os progenitores não terão que passar pelo processo de análise do embrião no útero (amniocentese, que traz algum risco para o bebé), esperar pelos resultados, e tomar a decisão de interromper a gravidez, se o resultado for desfavorável.


Fertilização in vitro

Quanto mais sabemos sobre a base genética das várias doenças e características, e quanto mais sofisticados se tornam os métodos de análise, mais análises podemos realizar. Obviamente, nenhum progenitor quereria que um filho sofresse de uma doença grave – mas e quanto a doenças menos graves, como a hemocromatose, a surdez congénita ou mesmo a miopia? Quem pode dizer que uma criança com estas características não viveria uma vida tão preenchida quanto a de uma pessoa saudável? Essencialmente, esta questão traz à luz o assunto sobre o que é ser normal. Onde estabelecemos a fronteira que separa as características genéticas aceitáveis das que não o são? Além disso, será aceitável permitir aos progenitores escolher o sexo do seu filho, a sua altura ou beleza ou inteligência?


Imagem cortesia de jgroup / iStockphoto

Outra questão importante é se realmente queremos saber o que os nossos genes nos reservam. E se descobrisse que possui um elevado risco de desenvolver uma doença grave? Poderia alterar o seu estilo de vida para adiar o aparecimento da doença ou reduzir os seus sintomas, mas como se sentiria sabendo o risco que corre? E se as companhias de seguros ou potenciais empregadores tivessem acesso a essa informação? E se houvesse o risco de transmitir essa doença aos seus filhos? Não gostaria o seu companheiro de saber? Será que isso alteraria os sentimentos dele/dela por si? Para sugestões sobre como estimular a discussão destes assuntos numa aula.

É nesta fase que o trabalho de consultores genéticos como a Sabine Hentze é realmente essencial: “Para além do meu trabalho de laboratório, passo muito do meu tempo no aconselhamento de pacientes, por outras palavras, em comunicação: o que significa este resultado? O que significa para mim, para o nosso filho, para a nossa família, para o nosso futuro?

E é através do trabalho de consultores genéticos que nos apercebemos que uma das mais importantes considerações a ter em análise genética é o direito que as pessoas têm de não saber.

Fonte:http://www.scienceinschool.org/2009/issue13/insight/portuguese#w1