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Gaivotas do Porto e Matosinhos são reservatórios de bactérias multi-resistentes 8 de Setembro de 2009

GaivotasInvestigação do ICBAS detectou uma alarmante resistência a antibióticos e alerta para problema que terá origem nos esgotos

Os resultados são “alarmantes”, mas as gaivotas são apenas um sinal, avisa o investigador Paulo Martins da Costa, que liderou a equipa de investigadores do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar. Segundo o especialista, o estudo detectou uma preocupante multi-resistência aos antibióticos em algumas bactérias encontradas nas gaivotas que frequentam a orla costeira do Porto e Matosinhos. Porém, a culpa é nossa.

As aves serão vítimas do abuso destes fármacos pelos humanos, mas, por outro lado, podem ser uma ameaça funcionando como fonte de contágio e devolvendo aos homens estas invencíveis bactérias.

Quando o estudo arrancou, em 2007, os investigadores queriam “apenas” perceber qual era o papel das gaivotas na dispersão das salmonelas. A análise das amostras levou a outras revelações. “Ficámos um pouco alarmados com o que encontrámos”, admite Paulo Martins da Costa: foi detectada uma enorme quantidade e diversidade de estirpes da bactéria Escherichia coli (E. coli) que se mostrou resistente a 20 antimicrobianos testados. Este organismo é comum no homem, habitando nos seus intestinos e, embora a maioria das vezes não cause doenças, pode revelar-se patogénico, desencadeando intoxicações, gastroenterites e infecções graves. Outra das bactérias detectadas foi a Enterococcus faecalis, que mostrou elevada resistência à vancomicina (antibiótico usado em ambiente hospitalar).

Os efluentes dos hospitais estão no topo da lista de suspeitos deste risco para a saúde pública, diz Paulo Martins da Costa, que defende que não basta tratá-los, mas é preciso também desinfectá-los para minimizar o perigo. O ciclo é simples: nós abusamos de antibióticos que tornam as bactérias multi-resistentes e que despejamos nos esgotos pela urina e fezes, as gaivotas vão buscar estas bactérias aos esgotos e águas tratadas. Poderão, depois, devolvê-las ao homem causando doenças às pessoas com sistema imunitário mais deprimido. “A solução não é vermo-nos livres das gaivotas”, diz o investigador, considerando que as bactérias estarão presentes noutros animais que ocupam ecossistemas com lixeiras e esgotos, como alguns peixes. “Este estudo mostra que estamos a exportar para o meio ambiente as resistências aos antibióticos”, avisa. Portugal é o quarto país europeu com o consumo mais elevado de antibióticos em ambulatório.

08.09.2009 PÚBLICO