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Galileu Galilei: O homem que abriu a janela pela qual continuamos a olhar o universo 27 de Agosto de 2009

galileuTelescópio foi apresentado há 400 anos
Se mais nada houvesse, as quatro luas de Júpiter descobertas em 1610 por Galileu Galilei teriam sido suficientes para deixá-lo célebre. A 7 de Janeiro desse ano, o cientista, original de Pisa, olhou através de um telescópio fabricado por si – com mais qualidade do que o que tinha apresentado ao Senado de Veneza meses antes – e viu quatro luzinhas que giravam à volta de Júpiter e que pareciam estrelas.

A descoberta, como sempre, não lhe bastou e Galileu passou a fazer observações cuidadosas noite após noite. Com registos, esquemas, rigor, persistência. “Com Galileu, cada facto extraordinário que ele descobria passava imediatamente a objecto de estudo sistemático. É isto que é genial nele”, lembra Henrique Leitão, investigador em História da Ciência da Universidade de Lisboa.

O estudo produziu frutos: as luzes, afinal, eram os primeiros quatro dos mais de 60 satélites que estão amarrados ao planeta gigante. As implicações da descoberta não tardaram e a curiosidade de Galileu estava apenas a começar a abanar o mundo. Muito mais estava para vir.

Um ano antes, Galileu era apenas um professor menor da Universidade de Pádua, com 45 anos, amante da mecânica, com dificuldades financeiras por ter de sustentar a família, longe de imaginar que um objecto baseado em princípios ópticos fosse transformá-lo num revolucionário da Astronomia. Nessa altura, o telescópio começava a aparecer como curiosidade em algumas feiras na Europa, depois de ter sido inventado na Holanda, em Outubro de 1608.

O que se conta, ou pelo menos o que Galileu conta, é que ouviu rumores na Primavera seguinte sobre o objecto. “Galileu, segundo o próprio, começou a fabricar o telescópio apenas com essa informação”, explica Henrique Leitão, acrescentando que o cientista era muito bom artesão. Rapidamente foi aperfeiçoando o telescópio através do polimento das lentes, uma técnica que os artesãos da região dominavam.

O telescópio que apresentou ao Senado de Veneza a 25 de Agosto era um simples tubo com uma lente côncava do lado da ocular e outra convexa na objectiva. Durante o Verão, o instrumento ainda era visto como um objecto militar que dava um novo significado à frase “Vê os teus inimigos antes que eles te vejam”.

Galileu entrou em contacto com o Senado com o objectivo claro de melhorar a sua posição na universidade. Apesar de ter conseguido a recompensa, tudo indica que não ficou muito contente com o aumento de rendimentos. Mas já não tirou mais a mão do telescópio e, algures durante o Outono, decidiu finalmente utilizá-lo para olhar o céu. O primeiro objecto que focou foi o que estava mais perto, o mais fácil de todos, o que é irresistível de olhar. Foi logo à primeira, com a Lua, que Galileu começou a fazer estragos na mentalidade da época. “As observações da Lua têm um carácter sistemático e de rigor que permitem retirar conclusões que mais ninguém retirou. Ele repara que a Lua é feita de montanhas e vales, consegue fazer uma estimativa da altura das montanhas”, descreve também o investigador português. “A Lua fica apresentada como um enorme rochedo” e torna-se muito mais semelhante à Terra.

Ainda segundo Henrique Leitão, os desenhos de Galileu da Lua tinham tanta qualidade que as pessoas conseguiam identificar os pormenores a olho nu. A matéria celestial, a quinta-essência, o sagrado começam a ser postos em causa.

Depois, vieram as luas de Júpiter. Mas foi quando apontou o telescópio para Vénus, viu as fases que o planeta tinha e só conseguiu justificá-las através da teoria heliocêntrica de Nicolau Copérnico – desenvolvida quase cem anos antes e publicada no ano da morte do polaco, em 1543, que diz que o Sol é o centro do universo e não a Terra – é que percebeu a prova que tinha na mão e finalmente pôs o mundo a questionar a teoria geocêntrica.

Henrique Leitão resume: “Em 1600, estima-se que existam 10 copernianos em todo o mundo, só os eruditos conhecem a teoria. Com Galileu, a hipótese de Copérnico ganha os fóruns, as regras do jogo vão mudar. [Galileu] vai transformar o debate de superespecialistas numa discussão para toda a gente”.

Objecto revolucionário
Filósofos, cientistas, artistas, poetas, teólogos, discutiram sobre as observações de Galileu. Foi efervescente. Muitas pessoas tinham telescópios de má qualidade e Galileu tornou a sua casa numa fábrica de telescópios para assegurar aos interessados bons instrumentos que permitissem realizar as mesmas observações. Por outro lado, ao mesmo tempo que ia fazendo os seus registos, os astrónomos jesuítas confirmavam o que o cientista via.

Há um entusiasmo único, um fascínio que faz com que Galileu inicie estas investigações e apresente tantas ideias. “Muitos dos seus documentos têm uma retórica fantástica”, assegura o investigador português. “Apesar de Galileu não provar que a Terra se movia, as suas contribuições tornaram muito mais fácil acreditar que sim”, explica por e-mail ao P2 Owen Gingerich, professor de Astronomia do Instituto de Astrofísica da Universidade de Harvard. “Ele ajudou a mudar as regras da ciência. Hoje, a ciência funciona muito mais por persuasão, com explicações alargadas e coerentes, e menos por provas.”

Nada disto teria sido possível sem o telescópio, que Henrique Leitão diz ser “absolutamente revolucionário”. “Muda a carreira de Galileu – era um professor menor e torna-se do dia para a noite no cientista mais importante da Europa. Torna o debate sobre a teoria de Copérnico obrigatório. É preciso compreender o instrumento, toda a literatura da altura mostra o fascínio pelo telescópio.” Talvez tão incrível como isso é que, para a Astronomia, o telescópio permanece actual. “Continua a ser a melhor ferramenta, embora com formas e alcances bem mais evoluídos, colocados na terra ou no espaço”, diz, por e-mail, Máximo Ferreira, astrónomo e coordenador científico do Centro de Ciência Viva de Constância.

Desafios actuais
Sem telescópios, um dos maiores desafios actuais da Astronomia não se concretizará. “Neste momento, os astrónomos estão a tentar encontrar planetas parecidos com a Terra com assinaturas de vida. Isto poderá bem ser encontrado na próxima década”, explica Owen Gingerich, acrescentando que este desafio é muito diferente de encontrar vida inteligente, “que provavelmente não acontecerá durante os nossos tempos de vida”.

Para Máximo Ferreira, a grande questão, onde está envolvido um maior número de investigadores, “está relacionada com a expansão do universo e com a identificação e (eventual) detecção da matéria e energia escuras”. O astrónomo aponta a descoberta da matéria invisível, que não emite radiação – mas que pode ser inferida pela força gravítica que tem na matéria visível – para “daqui a algumas décadas”.

Seria com certeza mais um exemplo da capacidade de observação, procura e imaginação do homem – que, em simultâneo, o torna cada vez mais pequeno no meio do cosmos, tal e qual Galileu fez há 400 anos. A Astronomia é, para Owen Gingerich, “a ciência que nos traz mais surpresas e mudanças na forma como nos vemos no universo”; “tirou-nos certamente do mundo fechado da Idade Média para o vasto universo de hoje”. Não pára. Talvez por isso seja a mais revolucionária de todas as ciências, onde apostamos a fé no que ainda nos pode revelar, mesmo quando não percebemos os conceitos, mesmo que fiquemos mais confundidos com ideias como o futuro, o passado, o tempo ou as distâncias.

O conhecimento que Galileu proporcionou não se cansa de expandir. “Vamos ver coisas extraordinárias”, defende Henrique Leitão. Mais do que agradecer ao astrónomo que foi perseguido pelas suas descobertas pela “inteligência das coisas” que nos deu, como fez António Gedeão no seu Poema para Galileu, vale a pena celebrar a janela que abriu apenas com um instrumento e o seu génio. “O futuro vai fazer-nos surpreender como as pessoas do século XVII foram surpreendidas com Galileu; a ciência é hoje tão fascinante como em 1609.”

25.08.2009 PÚBLICO